O rompimento entre a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (Republicanos), e o deputado federal Rodrigo Valadares (União Brasil) produziu mais do que uma crise dentro da oposição sergipana. O episódio acabou escancarando uma grande contradição no discurso que ajudou a eleger a atual gestora da capital em 2024: o combate ao chamado “sistemão”.
A exoneração de Simone Valadares da Secretaria da Família e da Assistência Social foi o gesto que formalizou o rompimento na última semana. O movimento ocorreu logo após Rodrigo anunciar um novo palanque da direita ao lado do vice-prefeito Ricardo Marques (Cidadania), com apoio direto do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao anunciar a saída da mãe do deputado da gestão, expondo mágoas e direcionando críticas ao parlamentar, Emília também deixou claro que não existe política sem um sistema de alianças. A prefeita afirmou que sua gestão “exige alinhamento político” e que isso deixou de existir por parte de Rodrigo.
O deputado reagiu rapidamente, alegando que a prefeita teria trocado Bolsonaro pelo grupo dos Amorim, o que, segundo ele, representaria uma ruptura com o bolsonarismo.
O episódio acabou fragilizando justamente o discurso que sempre foi utilizado por Emília para se diferenciar do que chamava de “sistemão”. Afinal, a distribuição de cargos ou a abertura de espaço para aliados e familiares dentro da máquina pública é uma prática frequentemente criticada por movimentos e lideranças que se apresentam como antissistema.
Na gestão municipal, no entanto, opositores apontam que esse tipo de prática também estaria presente. Parlamentares da oposição na Câmara Municipal afirmam que o grupo dos Amorim ocupa uma parcela significativa da estrutura administrativa, chegando a controlar entre 70% e 80% das pastas.
Diante desse cenário, o rompimento entre Emília e Rodrigo parece representar mais uma reacomodação de forças dentro do próprio sistema político. Na prática, quem permanece alinhado continua ocupando espaço na gestão, enquanto aqueles que rompem acabam perdendo terreno.
Ao tornar essa dinâmica mais evidente, o episódio também coloca em xeque a narrativa de que a atual gestão estaria rompendo com práticas tradicionais da política, reforçando a percepção de que, em vez de romper com o sistema, acabou consolidando o seu próprio arranjo de poder.